50 anos de revoluções

50 anos de revoluções Aeroporto de Viracopos (Foto: Museu de Imagem e Som de Campinas)

Há exatamente 50 anos, às 9h45 do dia 19 de outubro de 1960, o Boeing 707, da Varig, aterrissou na pista que um dia foi um campo de pouso de terra batida, criado pelo major Lysias Rodrigues como esconderijo de aviões de guerra usados pelos paulistas na Revolução Constitucionalista de 1932. O evento, desta vez pacífico, marcava a inauguração “oficial” do Aeroporto Internacional de Viracopos, em Campinas. A homologação fez do terminal o único aeroporto no Estado de São Paulo a ser reconhecido como apto para o tráfego aéreo internacional de passageiros e cargas.

A inauguração foi uma festa que reuniu políticos, especialistas em aviação civil, empresas do setor e a população em geral, orgulhosa por mais uma conquista de uma cidade que sempre teve destaque na cultura e economia do Brasil.

O aeroporto teve sua construção iniciada pelo governador Adhemar Pereira de Barros, junto com o desenvolvimento dos aviões a jato. Sua longa pista, de 3.240 metros de comprimento por 45 metros de largura, foi construída para receber com segurança os quadrimotores a jato de primeira geração, como o já citado Boeing 707.

Pelo terminal aeroportuário, passaram celebridades como o ex-presidente norte-americano Ronald Reagan, o rei do futebol Pelé no auge da carreira, a religiosa Madre Tereza de Calcutá e a atriz Vivien Leigh, que interpretou Scarlett O’Hara, protagonista do clássico E o Vento Levou.

A rainha da Inglaterra, Elizabeth II, desembarcou em Viracopos no final de outubro de 1968. Ela veio visitar o Instituto Agronômico de Campinas (IAC), ao lado do príncipe Phillip.

A era de glamour de Viracopos durou até 1985, quando o aeroporto foi desbancado pelo recém-inaugurado Aeroporto Internacional de Cumbica, em Guarulhos, na Região Metropolitana de São Paulo. Mas, enquanto esteve no topo da aviação nacional de passageiros, Viracopos registrou momentos triunfantes.

Concorde

Não eram apenas famosos — astros e estrelas das mais diferentes áreas — que faziam sucesso no aeroporto. Aeronaves de última geração pousaram e decolaram da pista de Viracopos. Em 1971, o avião supersônico francês Concorde fez um voo experimental até o Brasil e pousou no terminal aeroportuário de Campinas. O evento atraiu uma multidão que foi ver in loco a máquina futurista, provocando um congestionamento nunca visto antes ali. O piloto disse, após a aterrissagem, que Viracopos era “indubitavelmente um dos melhores aeroportos do mundo”. O elogio tinha uma razão específica: as condições meteorológicas. O aeroporto tem teto, ou seja, fica aberto para pousos e decolagens durante praticamente todo o ano. Ao contrário dos aeroportos da Capital, que sofrem com o mau tempo constante.

No mesmo ano do pouso do Concorde, outra supermáquina da época desceu em Viracopos: um jumbo da Lufthansa. Mais uma vez, o aeroporto se transformou em ponto turístico para os campineiros e a população de cidades da região. Um dos maiores aviões do mundo, o russo Antonov An-124, também descansou suas turbinas em Campinas.

Durante os anos dourados, as personalidades que passavam por Viracopos se tornavam notícia nas páginas de grandes revistas e jornais no País. No auge, todos os principais voos internacionais com destino ao Estado de São Paulo passavam pelo terminal campineiro.

Dificuldades

O início das operações foi repleto de dificuldades. As instalações ainda eram precárias e os funcionários se desdobravam para superar os percalços que surgiam no dia a dia. O primeiro avião com procedência estrangeira pousou em Viracopos no dia 21 de outubro de 1960, dois dias depois da inauguração oficial. A aeronave foi um DC-8 da Panamerican. O pouso ocorreu à 0h21 e trazia 70 passageiros vindos de Nova York, nos Estados Unidos. O avião tinha 345 quilos de carga, 320 quilos de bagagem e 360 quilos de correios. O retorno foi realizado no mesmo dia. A aeronave partiu com 24 passageiros, às 13h50. Na saída, o voo tinha 720 quilos de bagagem e 300 quilos de cargas.

Ponto de resistência dos revolucionários paulistas

O antigo campo de pouso de terra batida ficava incrustado em uma área rural de Campinas, de onde se avistava o Centro da cidade. Um pedaço de chão no bairro então conhecido como Vira-Copos, na região Sudoeste do município. Lugar estratégico, o ponto foi o escolhido pelo major Lysias Rodrigues para ser utilizado como área de aterrissagens e decolagens dos aviões que ajudavam os paulistas na guerra contra o governo provisório de Getúlio Vargas (1883-1954), durante a Revolução Constitucionalista de 1932. O local também serviu para que o militar escondesse as aeronaves dos constitucionalistas.

A disputa de ideias que acabou em armas durou de julho a outubro daquele ano e os paulistas acabaram se rendendo. O movimento, contudo, provocou transformações importantes no cenário político brasileiro, como a convocação de uma Assembleia Constituinte.

A história do aeroporto campineiro se confunde com a resistência dos paulistas contra os “vermelhinhos” legalistas que formavam o exército de Vargas. Os primeiros traços do que é, atualmente, o Aeroporto Internacional de Viracopos nasceram justamente quando o major necessitou transferir a sua base de operações, sediada no antigo hipódromo do Bonfim, para uma área mais segura. O antigo local sofria sucessivos ataques das forças governistas e precisava ser abandonado rapidamente.

O bairro de Vira-Copos também possuía um hipódromo, só que o local funcionava de forma clandestina. A pista era usada nas corridas de cavalos matungos mantidos por um sitiante da região. O cenário era muito diferente do hipódromo do Bonfim, no qual desfilavam os mais seletos puros-sangues. Mas, na ocasião, se encaixou bem aos propósitos do militar constitucionalista.

Camuflagem

No início, Rodrigues instalou um hangar de campanha. O novo quartel-general foi a base de onde se arquitetaram ataques às forças legalistas. Os voluntários paulistas da revolta constitucionalista contra as forças de Vargas precisavam de um local seguro para esconder suas aeronaves, que eram peças fundamentais na disputa contra os “vermelhinhos”. Bom estrategista, o major Rodrigues, além de escolher uma planície para implantar a pista, ainda camuflou os aviões com ramagem para confundir as tropas do presidente gaúcho.

Antes do surgimento de Viracopos como pista de pouso e decolagens, a “mocidade bandeirante”, nome dado aos paulistas que lutavam pela destituição do governo provisório de Vargas, costumava esconder suas aeronaves em três pontos estratégicos: nas divisas com o Sul de Minas Gerais e o Norte do Paraná e também no Vale do Paraíba.


Publicado em: 19/10/2010

Fonte: Jornal Correio Popular

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