19/11/2009
Para a Posteridade
Governantes de todos os matizes e ao longo de todo o processo histórico não só desenvolveram uma arquitetura do poder para que pusessem em prática os seus projetos políticos, mas também se esforçaram para que não fossem esquecidos de suas obras para a posteridade. Assim fizeram o rei Hamurabi que ao implantar um código de leis na Mesopotâmia, fez esculpir sua figura para ele fosse lembrado para todo o sempre, cultuado, admirado e exaltado. Ramsés II fez o mesmo quando mandou esculpir seu nome em hieróglifos em todos os monumentos de pedra que pode, inclusive nos que não construiu, mas isso foi apenas um detalhe, o fato é que seus ideogramas ainda são vendidos como suvenir em todo o mundo. O imperador chinês Huang Ti foi mais além, mandou queimar todos os livros que contavam os feitos do passado, como se tudo o que existia no império do meio, tivesse começado no seu reinado. Não chegou a dizer " nunca antes neste império..." Essas exaltações fazem parte da natureza humana, mas é verdade que tudo acabou tomando um vulto imenso no Século XX quando os governantes tiveram a sua disposição os veículos de comunicação de massa e com isso puderam dar asas para o ego e desenvolver o culto à personalidade, um fenômeno político que juntou nomes de liberais, comunistas, fascistas, democratas, ditadores, burocratas, enfim um grupo que não se contentou apenas com o poder, Justificaram essa exposição em grandes desfiles, retratos em repartições públicas, filmes, cartazes e tudo o que coubesse e seu rosto sorridente. Auto promoção foi tomada como uma forma de consolidação do poder e vários desses ególatras estiveram décadas com a mão de ferro sobre o Estado.
Em uma democracia os excessos são punidos pela sociedade, principalmente quando o dinheiro público é usado para imortalizar os detentores do poder. O caso mais recente é a decisão de se reformar os apartamentos dos deputados em Brasília a um custo exorbitante. A presidência da casa anunciou o início das obras, o valor e uma onda de indignação atravessou as caixas postais e redes sociais na internet. Uma reforminha vai custar meio milhão de reais. Por unidade é claro. Isto tudo foi anunciado como se o dinheiro do cidadão/eleitor/ contribuinte estivesse brotando em árvores e o máximo de esforço necessário seria apenas colher e gastar. Uma decisão como essa em plena véspera de eleições ou demonstra um excesso de confiança, com a amnésia do eleitor até o pleito, ou um agrado aos colegas para conseguir apoio para chegar a um outro cargo onde os votos do eleitor/contribuinte/cidadão são irrelevantes. Vices e suplentes de senador chegam ao poder sem um único voto popular. Talvez isso explique a audácia de uma despesa como essa.
Há um sentimento na sociedade, não se sabe ainda de que intensidade, que é preciso fazer uma renovação geral em todos os parlamentos, seja o senado, câmara ou assembléia legislativa. Pela primeira vez se nota que o cidadão/eleitor/contribuinte não só está indignado, sentindo-se fazer um papel de palhaço, como está divulgando a sua insatisfação e concitando as pessoas que conhece para um grande movimento de cassação de mandato através das urnas no ano que vem.. Se isso vai ocorrer ou não só o tempo dirá, mas é interessante notar que várias entidades da sociedade civil estão se envolvendo e cada uma delas tem um poder de alcance muito grande. Figurinhas carimbadas, com retratos retocados com foto shop, centro de campanhas financiadas com as verbas ocultas recebidas pelos partidos de grande empresas, já se mobilizam e mostram sua força de mídia. Isso aponta para um embate no próximo ano, de um lado os marketeiros a peso de ouro buscando exaltar e caprichar no culto à personalidade, deixando de lado atos que podem tirar votos, e de outro o portador de um título eleitoral alvo dessa campanha. Moralizar, reduzir despesa, prestar contas, devolver ao tesouro o excesso de verba ninguém fala. É possível que até novembro do ano que vem muita gente busque informações no www.excelencia.org.br e resolva mudar tudo com o seu voto.
Heródoto é jornalista da CBN e da TV Cultura, Articulista em jornais, revistas e Internet.









































