26/02/2010
Campeonato das fitas
Existem várias competições que polarizam a atenção de todos. Vai da maravilhosa Olimpíada de Inverno de Vancouver, no Canadá, a Copa Libertadores da América, Copa do Brasil e campeonatos regionais. Nessas competições é possível descobrir coisas interessantes, como brasileiros disputando na neve na categoria de snowboarding e esqui, até um jogo engraçadíssimo onde os integrantes da equipe varrem o gelo para que uma pedra de 25 quilos chegue mais perto possível do alvo. Uma espécie de jogo de bocha gelado, com o complicadíssimo nome de curling. Mas tem uma competição que bate todas as outras é campeonato de fitas. Eu explico. P ara participar do game é necessário uma boa tesoura, uma fita amarrada, um sorriso plastificado para sair na telinha ou nas fotos e um discurso de improviso ensaiado exaustivamente com a assessoria. Vale cortar fita em qualquer lugar, em obras que ficaram prontas, em outras que já foram inauguradas mas ninguém sabe, e até mesmo em pedra fundamental de alguma coisa que ninguém sabe se algum dia vai se transformar em alguma coisa útil. Está aberto neste mês o campeonato de inauguração de obras.
A equipe é formada pelo inaugurador e um sem número de papagaios de pirata que aparecem no fundo impedindo que o cenário apareça. Eles são, com suas posturas altivas, o cenário. E tome inauguração. Pouco importa se a obra está ou não terminada ou se o dinheiro veio de uma outra esfera do Estado, o que vale é nóis na fita mano. Na fita da inauguração. Em breve a legislação eleitoral vai proibir esses espetáculos apoiados por claques contratadas a troco de um prato de comida, e transportadas em coletivos de algum empresário amigo. O que não pode faltar é gente para encher o cenário. Ao contrário de outros esportes que têm hora para começar e terminar, as competições do campeonato de fitas ocorre a qualquer momento. E quanto mais melhor. Por isso os líderes inauguradores devem estar fisicamente preparados para verdadeiras maratonas. De manhã em um lugar, de tarde em outro, à noite ainda em outro. Não tem sábado, domingo nem feriado. Para ganhar é preciso inaugurar todos os dias, nem que seja necessário viajar desconfortavelmente nos veículos oficiais. É um esporte para poucos. Antes de tudo é preciso resistência e treino para repetir os mesmos discursos apenas com a troca do nome das localidades.
Os eleitores são pescados com obras. As campanhas eleitorais na mídia mostram obras e mais obras e aquelas comparações que neste governo se construiu mais, se inaugurou mais do que no governo anterior. Nunca menos. Ninguém vai lá para saber se aquele hospital novinho novinho têm remédio, médico ou o equipamento caríssimo de tomografia não está funcionando por falta de uma tomada. É possível até que um jornalista vá lá conferir, mas a propaganda contra ataca baseada naquele máxima de repetir mil vezes a mesma coisas.... Nessa hora se esquece se outros serviços públicos funcionam ou não. A grande obra inebria as pessoas como grandes pirâmides surgidas nos meios do deserto. A obra é a chave. Eu fiz isso, fiz aquilo, construí aquiloutro, Por que ninguém pergunta com que dinheiro? Do jeito que eles falam até parece que custearam do próprio bolso e não com o que recolheram com a pesada carga tributária vigente. Os currículos dos que se habilitam a disputar eleições listam uma quantidade enorme de obras e muitas vezes elas aparecem em mais de um. Há monumentos de inaugurações com mais de uma plaquinha, afinal, um planejou, outro lançou a pedra fundamental, outro construiu o primeiro prédio e outro completou a obra. Nada mais justo que cada uma atribua a si o conjunto da obra. Não se espante com a quantidade de inaugurações deste mês, afinal elas foram contratada para ficar prontas nas vésperas da eleição, ainda que tenham custado mais e desfalcado os orçamentos de outros serviços. Só o desenvolvimento da cidadania e do espírito crítico podem mudar esse quadro, exigir um projeto de desenvolvimento sustentável, transparência da aplicação do dinheiro arrecadado pelos impostos e verificação se o que está sendo propagado é mesmo real. O horizonte deste ano de eleições gerais está recortado pelos prédios recém inaugurados e é nessa mediocridade que vai se travar a batalha para conquistar o eleitor. Viva o mestre de obras.









































