02/02/2010
Ainda o Privilégio
Aos poucos as pessoas vão entendendo que as autoridades públicas não são soberanas, nem absolutistas, nem agem por inspiração divina. São servidores da sociedade e sustentadas economicamente por ela. Gradativamente o cidadão/contribuinte/eleitor se conscientiza que há uma série de eufemismos para mascarar o fluxo de dinheiro que sai do seu bolso, sob a rubrica de dinheiro público, conta pública, erário público, verba governamental etc. Essas formas são o subterfúgio que alguns administradores públicos usam para desviar a atenção das pessoas que tudo o que está sendo realizado sai do bolso dele. Assim, o prefeito, governador e presidente não construíram nada, uma vez que usam o dinheiro do contribuinte e o correto seria dizer que a sociedade é quem fez. Mas muita gente ainda acredita como se tudo fosse bancado com o dinheiro da autoridade, e por isso ele se apresenta como um tocador de obra, e maliciosamente deixa as inaugurações de "suas " obras para o primeiro semestre do ano eleitoral. Aí vai tudo para a televisão no horário eleitoral seguido do eslogam de "ele faz, rouba mas faz, ninguém faz mais do que ele" e outras formas de iludir os menos atentos.
O governo, seja em que nível for, joga uma boa parte do orçamento colhido do bolso do contribuinte/cidadão/eleitor em uma determinada obra, compromete todo o resto, deixa de apoiar os centros de saúde, diminui a merenda escolar, piora a qualidade da limpeza pública, pressiona os salários dos servidores, desloca verbas de um lado para outro como em um passo de mágica e usando o poder divino herdado dos reis absolutistas não presta contas a ninguém. Boa parte do orçamento para uma única obra que ao mesmo tempo vai perpetuar o seu nome no rol dos faraós e sensibilizar o eleitorado. O pagador de imposto apenas assiste inerte o espetáculo de inauguração e se pergunta quem foi ouvido na hora de se decidir pela obra. E o tal do orçamento participativo que tanto se falou ? Ou não existiu ou foi armado como um grande circo com os cupinchas de plantão. Creio que o contribuinte não sabe que sustenta dois Congressos ao mesmo tempo.
O Congresso é formado por 513 deputados e 81 senadores. Existe outro tanto de deputados e senadores aposentados. Desde 1999 até hoje, segundo o Contas Abertas, já foram gastos do " dinheiro público " um bilhão de reais com aposentadorias, pensões e assistências. Todos que tinham mandato naquela época e que ainda está lá tem direito adquirido de, a qualquer momento, usufruir dessa benesse. Bastou ter 50 anos e ter contribuído por 8 anos para se requerer uma aposentadoria de R$4.100,00. O pagador desse privilégio é aquele que contribui 35 anos para o INSS, e na hora de se aposentar tem que passar pelo fator previdenciário que joga o valor lá em baixo.Uma boquinha como essa é para poucos, para os espertos, os que levam vantagem em tudo, os que têm o poder de fazer leis em benefício próprio. Para mascarar esse turbilhão de dinheiro o jeito é tratar o dinheiro público como se não pertencesse a ninguém, mas a uma entidade aleatória que não se alimenta do bolso do cidadão/contribuinte/eleitor. Portanto nessa hora de renovar a perpetuidade do privilégio muitos se apresentam como os tocadores de obras, ou se forem do legislativo, indicadores de obras e por isso também se nomeiam pais ou mães dos programas do governo. E o distinto público continua iludido com a falsa sensação que tudo aquilo teria custado um grande sacrifício para eles, afinal devem ter trabalhado muito para conseguir tanto dinheiro para bancar a obra. A seqüência de tudo isso, todo mundo já sabe, mas não sabe como por um ponto final.
Heródoto é jornalista da CBN e da TV Cultura, Articulista em jornais, revistas e Internet.









































